Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2013
Massive Online Open Course (MOOC)

 MOOCs, contextualização conceptual e histórica

Segundo Dave Cormier o termo Massive Online Open Course (MOOC) surge em 2008 numa conversa entre ele e George Siemens. Dave Cormier usou o termo para tentar dar um nome ao que George Siemens e Stephen Dowes estavam a fazer com cursos online  que assentam na teoria do Conectivismo. O Conectivismo é uma teoria de aprendizagem da era digital com quatro princípios fundamentais: autonomia, conexão, diversidade e abertura(Tschofen & Mackness, 2012, p. 124). Esta teoria reflete o paradigma da complexidade de Edgar Morin, um tecido de constituintes heterogéneas inseparavelmente associadas e emaranhadas em contraponto com a ideia de que o universo poderá ser analisado como se fosse uma máquina determinística perfeita (Morin, 2011). Esta perspectiva da complexidade na educação associada à teoria da revolução tecnológica de Castells, que introduz a tecnologia como agente de mudança da cultura, dão-nos pistas para os fundamentos que estão na base desta nova teoria de ensino (Castells, Majer, & Gerhardt, 2000).

Esta ideia é reforçada por George Siemens quando se refere ao Behaviorismo, Cognitivismo e Construtivismo como teorias que não surgiram no contexto em que a aprendizagem tinha o impacto da tecnologia, como tem acontecido nos últimos 20 anos(Siemens, 2004). A necessidade de uma nova abordagem ao ensino está claramente relacionada com o desenvolvimento da sociedade de informação. O aluno não tem apenas um livro, uma perspectiva uma opinião mas sim um emaranhado de informação em torno do mesmo tema que muitas das vezes tem um tempo de duração muito curto, uma vez que a velocidade de produção de conhecimento em algumas áreas é muito rápida.

Para George Siemens, o Conectivismo é a integração de princípios explorados pelo caos, sendo que este como ciência reconhece a ligação de tudo com tudo (Siemens, 2004). Reigeluth 2004, a teoria do caos e as ciências da complexidade permite-nos compreender o sistema de educação presente incluindo (a) quando cada um de nós está pronto para a transformação, e (b) as dinâmicas do sistema que são susceptíveis de influenciar as mudanças individuais que tentam fazer os efeitos dessas mudanças (Reigeluth, 2004).

Os MOOCs surgem como uma forma de resposta a estes tempos de complexidade como o formato pedagógico que integra em si mesmo os paradigmas da complexidade de Morin e da revolução tecnológica de Castells, que se integram nos modelos mentais e na prática da utilização das novas tecnologias de informação.

Um MOOC é um curso online aberto a qualquer pessoa, mas não é apenas um curso online, é uma forma de as pessoas se conectarem e colaborarem, incentiva a participação e consequentemente o envolvimento com a aprendizagem e com os materiais dos outros participantes. Os materiais estão disponíveis não só na plataforma em que se encontra o curso mas por toda a internet. Não existe uma sequência e um tempo para a aprendizagem, cada um dos participantes segue o seu próprio percurso no seu próprio tempo (Cormier, 2010).  A estrutura de um MOOC baseia-se em 4 atividades principais: Agregar, Misturar, Adaptar, Partilhar (Downes, n.d.)

 cMOOCs  e xMOOCs

Apesar de ser um conceito recente existem já um número significativo de MOOCs disponíveis e com um número considerável de participantes. No inverno de 2011 a Universidade de Standford disponibilizou 3 cursos online que tiveram um total de 450.000 inscritos. Desde então os MOOC são um dos tópicos mais discutidos na educação superior nos Estados Unidos (Vardi, 2012, p. 5). Os resultados obtidos na Coursera são realmente significativos e o número de cursos tem aumentado exponencialmente. No entanto, o formato oferecido pela Coursera é questionável relativamente à origem do termo MOOC. Este formato apesar de conter uma comunidade de apoio e alguma interatividade com os vídeos expositivos da matéria, nomeadamente quando se tem de responder a questões, não deixa de ter uma ligação muito forte à estrutura de uma aula em sala. São constituídos por uma componente expositiva e por exercícios que têm um tempo específico para serem entregues.

Isso significa que os MOOCs que mais visibilidade deram a esta metodologia de ensino não são os verdadeiros MOOCs?

Na verdade são cursos disponíveis online e abertos a todos, mas não têm por base a teoria do conectivismo. Como podemos verificar na apresentação que Daphne Koller, uma das fundadoras da Coursera fez para a TED, estes cursos têm por base os números e não a metodologia. Uma grande parte desta apresentação dedica-se à explicação de como a tecnologia foi utilizada para apoiar a metodologia e neste aspecto a Coursera está a fazer avanços interessantes, no entanto esta forma de ensino já existe desde os finais dos anos 90 com instituições como Athabasca University.

George Siemens faz um distinção clara entre estes dois tipos de MOOCs no seu blogELEARNSPACE onde distingue cMOOCs que se focam na criação e geração conhecimento, e partem dos conceitos iniciais de conectivismo, enquanto que os xMOOCs focam-se na duplicação de conhecimento. De um forma geral os xMOOCs têm universidades de prestígio a apoiá-los e são bem financiados. Apesar de gratuitos cursos como os que a Coursera organiza começam a ter um interesse económico por trás. Como podemos ver por este artigo, o modelo de negócio ainda não está devidamente definido, mas estas plataformas atraem muitas pessoas e começam a surgir várias possibilidades de fazer dinheiro.  Por enquanto os que estão em uso é a cobrança de um certificado no final do curso e pretendem uma espécie de plataforma de comunicação entre pessoas que fazem os cursos e empresas que procuram profissionais qualificados.

Phill Hill 2012, defende que os dois tipos de MOOCs nunca se irão fundir, que apesar de terem o mesmo nome que os seus objectivos e métodos são diferentes, logo as suas diferenças não devem ser ignoradas. Para este autor os dois ramos estão numa fase primária e precisam de se desenvolver os conceitos e as técnicas, prevendo que não existirá uma adoção massiva nos próximos tempos, pois ainda existem barreiras neste conceito que devem ser ultrapassadas. Steve Kolowich 2012, analisa os números apresentados pela Coursera e pela Udacity concluindo que a maior parte dos participantes são alunos adultos que já têm uma profissão e que pretendem fazer educação contínua.

Quanto aos cMOOCs, a sua essência assenta principalmente no conhecimento produzido pela comunidade, o conteúdo é apresentado pelo orientadores numa fase inicial para introduzir os conceitos, mas deve servir apenas como catalisador para uma procura individual e acima de tudo para a partilha entre participantes que são os proprietários do seu próprio espaço de ensino. Os cursos promovidos com este princípio tentam ser descentralizados, o conteúdo deve ser utilizado como um condutor para outras pessoas interessadas no mesmo tópico, uma espécie de canal aberto entre as pessoas que não acontece na sala de aula. Produz-se assim um conhecimento caótico e não estruturado ao contrário do que estamos habituados a ter nas escolas. Os cMOOCs tentam tirar sentido de um conhecimento caótico que assenta numa validação do instrutor e da rede social que se gera através do conhecimento caótico (Siemens & Rheingold, n.d.).

A estrutura de um cMOOC

Como o tema que aqui se trata é a educação mediada por tecnologia decidimos analisar o desenho de um cMOOC que está a acontecer neste momento sobre o tema Educational Technology and Media.

Este MOOC iniciou no dia 13 de janeiro, e já tem 1647 participantes e 355 blogs registados. Os materiais estão claramente expostos no blog com guias que ajudam os participantes a compreender como tirar o melhor partido do curso. Este mesmo guia tem uma componente colaborativa, um documento alojado no Google Docs onde se podem registar sugestões de melhoria.

As ferramentas disponíveis são as seguintes:

a) O blog que centraliza toda a informação sobre o curso e disponibiliza ligação a RSS Readers para que os participantes possam receber alertas das notícias que vão sendo publicadas;

b) O blog pessoal de cada um dos participantes, que deve ser criado numa plataforma em que o participante esteja à vontade. Poderá ser um blog já existente o único requisito é ter um RSS Feed;

c) Um agregador dos blogs dos participantes;

d) Sessões síncronas, através de uma plataforma de conferencias;

e) Twitter, uma forma de estar continuamente ligado ao que se está a passar sobre o curso, para partilhar recursos importantes;

f) A criação de uma mailing list, através das quais se divulgam novidades e eventos;

g) Uma comunidade, neste caso no Google+ para facilitar a conversa à volta de determinados tópicos;

 h) Um calendário partilhado no Google Calendar com os eventos. 

O primeiro passo para se entrar no curso é responder a um questionário que avalia os nossos conhecimentos ao nível da interação com a internet. Aparentemente este questionário não afecta os passos que se seguem no curso, é apenas uma forma de recolher dados. Começa por colocar questões como: “Sabe copiar e colar um URL?”, até questões mais complexas relacionadas com linguagem de programação HTML. De seguida deve-se fazer o registo do blog pessoal. Este é um passo muito importante, pois tal como é referido no próprio blog, os blogs pessoais são o coração deste MOOC. Só são aceites blogs com conteúdo pessoal, um agregador como o Scoop.it não é aceite. Depois de incluídos na lista os conteúdos dos blogs pessoais que tenham a tag ou categoria ETMOOC passam a estar disponíveis para todos quer seja no Blog Hub.

Tal como já se referiu anteriormente a interação entre as pessoas sobre determinados assuntos acontece mais nas comunidades. Este curso tem uma no Google+ com 676 membros e 9 moderadores, no Diigo estão 122 membros.  No delicious podemos encontrar uma série de links relacionados com o tema. A atividade do curso também é fortemente publicitada noTwitter do curso. Apesar de ser um curso que ainda está no seu início já é possível ver alguns dados como uma análise que mostra a atividade no twitter de tweets que continham “etmooc”.

Dos dados aqui apresentados podemos concluir que apesar de um elevado número de participantes os que estão ativos são uma pequena percentagem, veja-se por exemplo a comunidade no Google+ que é a mais representativa neste curso e tem apenas 122 membros em comparação com os 1647 inscritos.

O Vice Presidente da European Distance and E-learning Network, o Professor António Dias Figueiredo que faz uma análise sobre as virtudes e limitações dos MOOCs, no MOOC EaD (um blog português impulsionado por Paulo Simões) aponta a elevada taxa de abandono como uma limitação. Isto que pode afetar a evolução do modelo para lógicas de mercado, sendo que do nosso ponto de vista a entrada do cMOOCs no mercado pode por em questão a génese dos mesmos.

Terry Anderson também dedica um artigo a esta problemática do abandono, resultado da análise de algumas redes que se criam em torno destas redes de educação à distância e conclui que existe um grande número de participantes que fica desconectado como se pode visualizar nesta análise de um cMOOC.

Para além da elevada taxa de abandono os dados obtidos de alguns MOOCs, mostram que estes estão a ser frequentados principalmente por adultos, e que atualmente não resolvem o problema do ensino superior, mas sim da educação contínua.

A mediação tecnológica dedicada, isto é trabalhada de forma a tirar o máximo das suas potencialidades principalmente com a web 2.0, aumenta exponencialmente o acesso porque quebra as barreiras temporais e espaciais que se encontram em situações de ensino não mediadas por tecnologia, nomeadamente em sala de aula. As tecnologias que se utilizam podem ditar o sucesso destes cursos. Quanto mais facilitarem a participação entre os colaboradores maior será o sucesso.

Os MOOCs na vertente conectivista parecem ter mais impacto na relação entre os participantes, apesar de alguns xMOOCs como o caso do curso Human Computer Interactiondisponível na Coursera ter um peer assessment dos trabalhos, essa relação acaba por ser imposta e não é tão espontânea quanto as interações que se esperam gerar com os cMOOCs.

Esta é claramente uma área ainda muito nova e que terá de amadurecer nas suas diferentes vertentes.

 

Bibliografia

Castells, M., Majer, R., & Gerhardt, K. (2000). A sociedade em rede (8a edição.). Retrieved from http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/a_sociedade_em_rede_-_do_conhecimento_a_acao_politica.pdf

Cormier, D. (2010). What is a MOOC? Retrieved January 19, 2013, from http://www.youtube.com/watch?v=eW3gMGqcZQc&feature=player_embedded

Downes, S. (n.d.). How This Course Works ~ MOOC. Retrieved January 19, 2013, from http://www.mooc.ca/how.htm

Figueiredo, A. D. (n.d.). MOOCs – Virtudes e Limitações ~ MOOC EaD. 2012. Retrieved January 20, 2013, from http://moocead.blogspot.pt/2012/10/moocs-virtudes-e-limitacoes.html

Hill, P. (2012). Four Barriers That MOOCs Must Overcome To Build a Sustainable Model |e-Literate. Retrieved January 19, 2013, from http://mfeldstein.com/four-barriers-that-moocs-must-overcome-to-become-sustainable-model/

Kolowich, S. (2012). Who Takes MOOCs? Retrieved January 20, 2013, from http://www.insidehighered.com/news/2012/06/05/early-demographic-data-hints-what-type-student-takes-mooc

Morin, E. (2011). Introdução ao Pensamento Complexo (4a Edição., Vol. 24, p. 120).

Reigeluth, C. M. (2004). Chaos Theory and the Sciences of Complexity: Foundations for Transforming Education. Chemistry & …. Retrieved from http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cbdv.200490137/abstract

Siemens, G. (2004). elearnspace. Connectivism: A Learning Theory for the Digital Age. Retrieved January 19, 2013, from http://www.elearnspace.org/Articles/connectivism.htm

Siemens, G., & Rheingold, H. (n.d.). George Siemens on Massive Open Online Courses (MOOCs). Retrieved January 20, 2013, from http://www.youtube.com/watch?v=VMfipxhT_Co&feature=player_embedded

Tschofen, C., & Mackness, J. (2012). Connectivism and Dimensions of Individual Experience. The International Review of Research in Open and Distance Learning.

Vardi, M. Y. (2012). Will MOOCs destroy academia? Communications of the ACM, 55(11), 5–5. doi:10.1145/2366316.2366317

Young, J. R. (2012). How an Upstart Company Might Profit From Free Courses - College 2.0 - The Chronicle of Higher Education. Retrieved January 19, 2013, from http://chronicle.com/article/How-an-Upstart-Company-Might/133065/

 




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